O beijo da palavrinha IV

- Não importa, Poeirinha. Eu lhe conduzo o dedo por cima do meu.
Os pais chamaram o moço à razão: ele que poupasse a irmã daquela tontice e que a deixasse apenas respirar. Mas Zeca Zonzo fingiu não escutar. Ele tomou na sua mão os dedos magritos de Maria Poeirinha e os guiou por cima dos traços que desenhara.
- Vês esta letra, Poeirinha?
- Estou tocando sombras, só sombras, só.
Zeca Zonzo levantou os dedos da irmã e soprou neles como se corrigisse algum defeito e os ensinasse a decifrar a lisa brancura do papel.
- Experimente outra vez, mana. Com toda a atenção. Agora, já está sentindo?
- Sim. O meu dedo está a espreitar.
- E que letra é?
- É um "m".
E sorriram os dois, perante o espanto dos presentes. Como se descobrissem algo que ningém mais sabia. E não havia motivo para tanto espanto. Pois a letra "m" é feita de quê? É feita de vagas, líquidas linhas que sobem e descem. E Poeirinha passou o dedo a contornar as concavidades da letrinha.
- É isso, manito. Essa letra é feita de ondas. Eu já as vi no rio.
- E essa outra letrinha, essa que vem a seguir?
- Essa a seguir é um "a".
É uma ave, uma gaivota pousada nela própria, enrodilhada perante a brisa fria.

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